Educação

CNV em ação

Equipe Télos

25/05/2020, 23:05
CNV em ação

Esta semana estamos falando sobre relacionamentos, como ferramenta, estamos abordando a comunicação não violenta. Temos um vídeo no IGTV e um artigo no linkedin pontuando outros aspectos da CNV. Para o blog, queremos ilustrar um pouco mais como a CNV é na prática. 

Para isso, peguei dois exemplos do livro Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais, do Marshall Rosenberg. Aproveito esse momento, para mais uma vez recomendar a leitura deste livro na íntegra, vale a pena, confia em mim!

Uma coisa que eu escuto muito é: “Ah, para você é fácil! Você naturalmente tem a paciência, a CNV não é tão fácil assim para as pessoas normais.” O primeiro exemplo que escolhi para compartilhar aqui foi um em que o Marshall aborda exatamente isso. Então se até o precursor da CNV tem dificuldades com a prática da CNV, imagina o restante de nós?!

Espero que esse exemplo consiga ilustrar bem o fato da CNV ser uma constante prática, só vamos conseguir aplicá-la e realizá-la se não desistirmos de tentar.

A seguir, apresento um diálogo que o Marshall Rosenberg compartilhou em seu livro:

“Este diálogo ocorreu durante um seminário que eu conduzia. Após cerca de meia hora de apresentação, fiz uma pausa para abrir espaço para manifestações dos participantes. Um deles levantou a mão e declarou: “Você é o palestrante mais arrogante que já tivemos!”

Tenho várias opções para escolher quando as pessoas se dirigem a mim dessa maneira. Uma delas é levar a mensagem a mal; sei que faço isso quando sinto grande necessidade de me curvar, me defender ou arranjar desculpas. Outra opção (na qual estou bem treinado) é atacar a outra pessoa pelo que considero um ataque contra mim. Naquele dia, escolhi uma terceira opção: concentrar-me no que poderia estar por trás da afirmação daquele homem.

EU (deduzindo das observações que ele estava fazendo) Será que você está reagindo por eu ter demorado trinta minutos corridos para apresentar minhas ideias até vocês terem tido chance de falar?

ELE Não! Falando, você faz tudo parecer simples demais.

EU (tentando esclarecer melhor) Você está reagindo por eu não ter dito nada sobre como, para algumas pessoas, pode ser difícil pôr o processo em prática?

ELE Não, não para algumas pessoas - para você!

EU Então você está reagindo por eu não ter dito que o processo às vezes pode ser difícil para mim mesmo?

ELE Isso mesmo.

EU Você está aborrecido porque você teria apreciado algum tipo de sinal de minha parte que indicasse que eu mesmo tenho alguns problemas com o processo?

ELE (depois de uma pequena pausa) É isso mesmo.

EU (mais relaxado, agora que estava em contato com o sentimento e a necessidade da pessoa e dirigindo minha atenção para o que ela poderia estar me pedindo) Você gostaria que eu reconhecesse agora mesmo que esse processo pode ser difícil para eu mesmo colocar em prática?

ELE Sim.

EU (tendo esclarecido sua observação, se sentimento e seu pedido, faço uma introspecção para ver se estou disposto a fazer o que ele pede) É, esse processo muitas vezes é difícil para mim. Ao longo do seminário, você provavelmente me ouvirá descrever vários incidentes em que lutei - ou perdi completamente o contato - com esse processo, essa consciência que estou apresentando para vocês. Mas o que me faz persistir são as conexões de proximidade com outras pessoas, conexões que acontecem quando consigo me manter no processo.”

O próximo exemplo que escolhi, é um diálogo entre pai e filho, relacionado à um incidente que poderia ter sido fatal. Gosto dessa história pois realça muito bem o desafio de quando uma pessoa está disposta a conversar através da CNV e a outra não. É um desafio e tanto, pois quando já estamos acostumados com um certo padrão de comunicação, ao ponto de já ter decifrado todos os tons de voz e entonações da outra pessoa, nos fechamos para o diálogo verdadeiro, já que na nossa cabeça, já até sabemos como a pessoa vai responder. Então mesmo que tente dialogar de uma nova forma, leva tempo para os outros perceberem e se ajustarem à sua nova forma de comunicar.

Novamente, compartilho um trecho tirado do livro do Marshall:

“Carlos de 15 anos, pegou o carro de Jorge, um amigo da família, sem permissão. Ele saiu para se divertir com os amigos e devolveu o carro intacto à garagem, onde sua falta não havia sido notada. Entretanto, depois disso, a filha de Jorge (Eva, de 14 anos), que também tinha participado do passeio, contou ao pai o que tinha acontecido. Jorge então informou ao pai de Carlos, que agora está abordando o filho. O pai começou recentemente a praticar a CNV.

PAI Fiquei sabendo que você, a Eva e o Ricardo pegaram o carro do Jorge sem pedir permissão.

CARLOS Não, não pegamos!

PAI (falando alto) Não minta para mim; isso só piorará as coisas! (Ele então se lembra de primeiro se conectar a seus próprios sentimentos e necessidades, para poder continuar conectado ao filho.) Sente-se aí por um momento; preciso pensar. (Olhando para dentro de si mesmo, ele vê quanto está com raiva e com medo. Ele está com raiva porque está dizendo para si mesmo: “Carlos, deveria saber o que pode ou não pode fazer!” E: “Que mentiroso ele se tornou!” Ele está com medo, pensando em todas as consequências potenciais não apenas da ação de Carlos, mas de seu próprio erro de avaliação do que o filho poderia fazer. “Foi estúpido de minha parte presumir que ele sabia o que podia ou não podia fazer”. “Alguém poderia ter morrido nessa brincadeira!” Ele cai em si: “Opa, preciso traduzir os rótulos estúpido e mentiroso em sentimentos e necessidades. Para estúpido, acho que o sentimento é a decepção comigo mesmo: eu gostaria de pensar que o conhecia melhor. E, quanto ao mentiroso, estou com muito medo porque quero estar seguro de receber informações precisas para lidar com essa situação”. Silêncio, enquanto ele pensa em como recomeçar a conversa.) Carlos, você está com medo de ser castigado se me disser a verdade?

CARLOS É, você sempre pega tão pesado quando faço alguma coisa de que não gosta…

PAI Você está dizendo que gostaria de receber mais compreensão e um tratamento mais justo para o que você faz?

CARLOS Ah, claro! Até parece que vou receber um tratamento justo e compreensivo de você!

PAI (silenciosamente, para si mesmo: “Rapaz, como fico com raiva quando ele diz isso! Ele não enxerga quanto me esforço? Eu realmente preciso de um pouco de respeito pelo quanto isso é difícil, e acho que também preciso que ele se importe um pouco pelo medo que estou sentindo”.) Está me parecendo que você acha que, não importa o que diga, você não será tratado com justiça.

CARLOS E você se importa de me tratar com justiça? Quando acontece alguma coisa, você só quer alguém para poder castigar. Além do mais, grande coisa! Mesmo que realmente tenhamos pego o carro, ninguém se machucou e o carro está de volta ao lugar onde estava. Quero dizer, isso não é nenhum crime.

PAI Você esá com medo de que haverá consequências drásticas se você admitir ter pegado o carro e quer acreditar que será tratado com justiça?

CARLOS Sim.

PAI (dando um tempo em silêncio, para a conexão se aprofundar) O que eu posso fazer para que você acredite nisso?

CARLOS Prometa nunca mais me castigar.

PAI (consciente de que o castigo não ajudará Carlos a desenvolver a consciência das possíveis consequências de seu comportamento, mas apenas contribuirá para maior dissociação e resistência, o pai expressa disposição de concordar com o pedido de Carlos) Eu estaria disposto a esse acordo se você concordasse em continuar dialogando comigo. Isto é, conversarmos até que eu esteja convencido de que você tem consciência de todas as possíveis consequências de ter pegado aquele carro. Porém, no futuro, se acontecer de eu não ter certeza de que você enxerga o perigo em potencial daquilo em que está se metendo, eu ainda poderei usar a força - mas só para proteger você.

CARLOS Uau, maravilha! É ótimo saber sou tão estúpido que você tem de usar a força para me proteger de mim mesmo!

PAI (perdendo o contato com suas próprias necessidades, diz em silêncio: “Rapaz, há momentos em que eu poderia simplesmente matar o pirralho.... Fico furioso quando ele diz coisas como essa! Realmente, não parece que ele se importa… Que diabos, do que estou precisando agora? Preciso saber, já que estou me esforçando tanto, que ele pelo menos se importa comigo”. Gritando com raiva) Sabe, Carlos, quando você diz coisas como essa, fico realmente furioso. Estou me esforçando muito para ficar de seu lado nessa situação, mas quando ouço coisas como essa… Olhe, preciso saber se você está sequer com vontade de continuar conversando comigo.

CARLOS Eu não ligo.

PAI Carlos, eu realmente quero escutá-lo, e não cair em meus velhos hábitos de culpá-lo e ameaçá-lo sempre que alguma coisa me aborrece. Mas, quando ouço você dizer coisas como “É ótimo saber que sou tão estúpido” no tom de voz que acabou de usar, é difícil me controlar. Você poderia me ajudar nisso. Isto é, se você preferir que eu escute você em vez de culpá-lo e ameaçá-lo. Senão, suponho que minha outra opção seja apenas lidar com isso da maneira que estou acostumado a lidar com as coisas.

CARLOS E como seria isso?

PAI Bem, neste momento, acho que eu estaria dizendo: “Ei, você está de castigo por dois anos: sem televisão, sem carro, sem dinheiro, sem namoro, sem nada!”

CARLOS Bem, então acho que quero que você faça as coisas do jeito novo.

PAI (com humor) Estou contente de ver que seu senso de autopreservação ainda está intacto. Agora, preciso que você me diga se está disposto a me dar um pouco de honestidade e vulnerabilidade. 

CARLOS O que você quer dizer com “vulnerabilidade”?

PAI Significa que você me diz o que realmente está sentindo a respeito das coisas sobre as quais estamos conversando, e eu lhe digo o mesmo de minha parte. (com voz firme) Você está disposto?

CARLOS Ok, vou tentar.

PAI (com suspiro de alívio) Obrigado. Estou grato por sua disposição de tentar. Eu lhe contei? O Jorge pôs a Eva de castigo por três meses. Ela não vai ter a permissão de fazer nada. Como você se sente a respeito disso?

CARLOS Cara, que péssimo! Isso é tão injusto!

PAI Eu gostaria de ouvir seus reais sentimentos sobre isso.

CARLOS Eu lhe disse: é totalmente injusto!

PAI (percebendo que Carlos não está em contato com o que ele está sentindo, decide tentar adivinhar) Você está triste porque ela está tendo de pagar tão caro pelo erro que cometeu?

CARLOS Não, eu não quis dizer isso. Quero dizer, na verdade o erro não foi dela.

PAI Ah, então você está chateado porque ela está pagando por algo que originalmente foi ideia sua?

CARLOS Bem, sim, ela só fez o que eu disse a ela para fazer.

PAI Está me parecendo que você está um tanto magoado por dentro, vendo que tipo de efeito a sua decisão teve para a Eva.

CARLOS Mais ou menos isso.

PAI Carlinhos, eu realmente preciso saber se você está pronto para perceber que suas ações têm consequências.

CARLOS Bem, eu não pensei no que poderia dar errado. Sim, acho que realmente pisei feio na bola.

PAI Prefiro que você veja a coisa como algo que você fez que não saiu do jeito que queria. E eu ainda preciso ter certeza de que você tem consciência das consequências. Você poderia me dizer o que está sentindo nesse momento a respeito do que fez?

CARLOS Eu me sinto realmente estúpido, pai… Eu não queria magoar ninguém.

PAI (traduzindo em sentimentos e necessidades os julgamentos que Carlos fez de si mesmo) Então você está triste e arrependido do que fez, porque gostaria que as pessoas confiassem que você não magoaria ninguém?

CARLOS Sim, eu não queira causar tantos problemas. Eu simplesmente não pensei nisso.

PAI Você está dizendo que gostaria de ter pensado mais a respeito e tido uma ideia mais clara antes de agir?

CARLOS (refletindo) Sim…

PAI Bem, é reconfortante para mim ouvir isso, e, para que as coisas fiquem bem de verdade com o Jorge, eu gostaria que você fosse falar com ele e lhe dissesse o que você acabou de me dizer. Você estaria disposto a fazer isso?

CARLOS Mas, pai, isso é de dar medo! Ele vai ficar uma fera!

PAI Sim, é provável que fique. Essa é uma das consequências. Você está disposto a ter responsabilidade por seus atos? Eu gosto do Jorge, quero que ele continue sendo meu amigo, e aposto que você gostaria de manter sua amizade com Eva. Não é verdade?

CARLOS Ela é uma de minhas melhores amigas.

PAI Então, vamos lá vê-los?

CARLOS Sim.

PAI Iremos juntos. Estarei lá por você e com você. Estou realmente orgulhoso de você por estar disposto a isso.”

Espero que esses exemplos tenham servido para ilustrar melhor alguns aspectos da CNV e que tenham te inspirado para começar ou continuar a prática!

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